Poucas são as coisas na vida sobre as quais nós temos controle…
E diante de tudo aquilo que não podemos prever nem controlar, existe uma infinidade de possibilidades, tanto prazerosas e positivamente surpreendentes, como dolorosas e negativamente surpreendentes, que geram danos profundos e marcas permanentes na vida de quem as vivência.
É dentro deste universo infinito de possibilidades incontroláveis, que acontecem os eventos traumáticos. Podemos entender como trauma, tanto as lesões físicas geradas por eventos inesperados, como traumas psicológicos, decorrentes de experiências que ameaçam a vida e/ou a integridade, seja da própria vítima ou de terceiros.
Dentre os exemplos mais comuns de episódios traumáticos, estão os acontecimentos que envolvem morte ou ameaça de morte, ferimentos graves, acontecimentos que ameaçam a integridade física, diagnóstico de doença grave em si mesmo ou em familiares e amigos, abuso sexual e situações que de um modo geral, geram medo intenso, impotência e horror.
Embora a Associação Americana de Psiquiatria mencione eventos mais explicitamente identificados como traumatizantes no DSM V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), como acidentes, violências e agressões, também existem fenômenos menos explícitos, mas que deixam sequelas amargas na vida de quem os experienciam, como é o caso de episódios de violência verbal e psicológica, episódios de humilhação e ameaças, situações de extrema vulnerabilidade e desamparo, dentro uma outra série de fatores potencialmente traumáticos.
Outro fator importante sobre os traumas, é que muitas vezes eles são decorrentes das relações com as pessoas que mais amamos, tais como pais, parceiros(as) em relacionamentos afetivos, familiares de um modo geral e amigos, pois qualquer situação que nos faça sentir medo intenso, horror e impotência, pode se transformar em uma experiência traumática.
Passado o episódio traumático ou a série de episódios, o indivíduo que sobreviveu a ele(s), carrega consigo uma grande bagagem emocional, recheada de memórias potencialmente prejudiciais e capazes de despertar sons, cheiros, sensações e sentimentos iguais ou similares aos vivenciadas quando o trauma ocorreu. A frequência e a intensidade com que essas lembranças e emoções se manifestam e se generalizam na vida da pessoa traumatizada, irá variar de indivíduo para indivíduo. No entanto, é comum que muitas pessoas que carregam sequelas de experiências traumáticas, como bloqueios, inseguranças, quadros depressivos e/ou ansiosos, dificuldades de se relacionar afetivamente e socialmente, dentre outras, não tenham consciência da origem de seu sofrimento ou dificuldade, sem conseguirem ao menos, relacionar seu padrão de comportamento atual com a experiência traumática.
É por isso que o autoconhecimento é tão necessário para conseguirmos enxergar e compreender nossas dificuldades, necessidades e até mesmo nossos traumas, que muitas vezes não estão em um nível de consciência. É a partir do processo de autoconhecimento, preferencialmente conduzido por um profissional de psicologia qualificado, que o indivíduo que sofre sequelas traumáticas, possui um espaço acolhedor, ético e seguro para entrar em contato com a lembrança original do trauma e poder atribuir a ela um novo sentido e significado, pois assim como um antídoto é desenvolvimento a partir do próprio veneno, a cura de um trauma está intimamente ligada ao fator que o originou. Por isso, enquanto o indivíduo não tiver consciência do motivo de suas dificuldades e limitações psicológicas, ele provavelmente viverá na sombra da generalização e reprodução de seus medos, horrores e dores.
Portanto, se algo está incomodando e prejudicando sua qualidade de vida atualmente, seja por conta de insegurança, dificuldades nos relacionamentos interpessoais, bloqueios, limitações psicológicas, ou qualquer outro motivo… saiba que o incômodo é um primeiro passo importante para o início da mudança e transformação. O segundo passo, consiste em buscar ajuda e informação, permitindo-se olhar para dentro de si, com a ajuda de um profissional qualidade.
O processo de autoconhecimento é composto por altos e baixos, amargos e doces. Ele nem sempre é gostosinho (na verdade quase nunca é), mas a partir dele, você pode aprender a dançar com as suas próprias dores, atribuindo um mar de novos significados à sua história, capazes de promover brilho, sentido e liberdade para a sua trajetória.